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03 April, 2009

Pega de caras


Pensamos que há muita gente com mais legitimidade que outra para protestar ou sequer para considerar protestar contra as touradas. É este o tema de hoje, não é? Pronto vá diz lá.

Na nossa perspectiva, consideramos a tourada uma coisa completamente arcaica e geradora de um prazer contemplativo que é da ordem do homo erectus, sendo que é essa a opinião que nos suscita. Por um lado, a grande carneirada popular não abona muito em favor da tauromaquia - hoje é mais conhecida pela sua presença nos estádios de futebol-; e por outro lado pela frieza com que se assiste, e ainda mais, se vibra, com o sofrimento de um animal - que ainda por cima não luta em pé de igualdade, o que pode sugerir alguma cobardia de como a "arte" é preparada.

Vendem a tauromaquia como uma arte. Arte, arte é o Cavalia para os cavaleiros! Ou para os forcados o Rugby, o bungee-jumping, ou TigerWresting. E para os matadores, pois para as sevilhanas e para o hóquei não é preciso torturar um animal. Façam outra coisa, é preciso magoar o bicho!?

Mas, apesar de quaisquer juízos morais, também só lá vai quem quer, só vai à missa quem quer, só vai à bola quem quer. E por muito estúpido que nos pareça, julgamos ter de aceitar que a tauromaquia não rouba nada a ninguém e que, lá na terra deles, por muito estúpida que seja a actividade, eles lá se divertem e não obrigam ninguém a ir.

O preço a pagar pelo divertimento dos aficionados da tourada é alto. Ainda assim, o que é mais arcaico, brutal e completamente inconcebível é a maneira como se tratam os animais na indústria de produção alimentar. A tourada? A tourada é para meninos! Vão ver a carninha que comem embaladinha do Pingo Doce e vão ver como é que as ovelhinhas são atiradas à bruta de carrinhas abaixo ou como as galinhas são electrocutadas automaticamente assim que saem pela primeira vez da gaiola no fim da sua curta vida cheia de hormonas para o super-crescimento. Como vivem com a pressão para serem mortos.

E para este espectáculo, infelizmente, nem toda a gente sabe que compra o bilhete todos os dias. E mesmo os que o sabem, oh pois não vão deixar de ir comprar a sua carnuca para o churrasco de Domingo. E para a terem sabe-se muito bem que não se matam nem se torturam 10 touros por tourada mensal, rebaixa-se sim a condição de existência de milhares de seres vivos até ao mais baixo da crueldade, diariamente.

"Ah mas isso é carne pa comer, não é só para matar os animais". Pois, mas mesmo jogando no campo do que é moralmente válido, como os que nisso acreditam gostam de fazer, a indústria, e não a mão do Homem, é que "produz" a comida. A indústria não é o homem e não obedece só à fomeca de cada um. Obedece a estratégias de rendimento, em nome das quais se matam os animais que forem precisos da maneira mais rentável possível, mesmo que seja para criar excedentes e criar deformidades na natureza. Apesar de não termos aqui dados nem paciência para estar a falar dos contornos de como isto se processa, suspeita-se que os animais em cativeiro e as suas vidas sofrem mais do que aquilo que seria necessário se a indústria tivesse ligada à cabeça e à fomeca de cada um; e não quisesse nunca criar mais necessidades do que aquelas que realmente temos.

Por isso, quem gosta de dizer mal das touradas mas come o bifinho embaladinho da indústria carniceira ou até do talho, deveria pensar muito bem antes de se por a fazer juízos morais sobre as touradas ou a caça. Se calhar há prazeres mórbidos, que, quando disfarçados de necessidade, se tornam perigosos e afectam o julgamento de cada um.

Nós vamos continuar a comer o bife, temos pena, e a não gostar de touradas, temos pena; mas ao menos não há cá rebeldia sem causa. Para quem não come o bifinho, ai pois é a quem se pode dar toda a legitimidade para protestar; mas quem o come, tem que se lembrar que a vida não é Barrancos e um dia não são Samoras Correias.

Mu.

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