"

My Photo
Name:
Location: Portugal

16 April, 2009



Clique na imagem para uma melhor perspectiva da opinião.

03 April, 2009

Pega de caras


Pensamos que há muita gente com mais legitimidade que outra para protestar ou sequer para considerar protestar contra as touradas. É este o tema de hoje, não é? Pronto vá diz lá.

Na nossa perspectiva, consideramos a tourada uma coisa completamente arcaica e geradora de um prazer contemplativo que é da ordem do homo erectus, sendo que é essa a opinião que nos suscita. Por um lado, a grande carneirada popular não abona muito em favor da tauromaquia - hoje é mais conhecida pela sua presença nos estádios de futebol-; e por outro lado pela frieza com que se assiste, e ainda mais, se vibra, com o sofrimento de um animal - que ainda por cima não luta em pé de igualdade, o que pode sugerir alguma cobardia de como a "arte" é preparada.

Vendem a tauromaquia como uma arte. Arte, arte é o Cavalia para os cavaleiros! Ou para os forcados o Rugby, o bungee-jumping, ou TigerWresting. E para os matadores, pois para as sevilhanas e para o hóquei não é preciso torturar um animal. Façam outra coisa, é preciso magoar o bicho!?

Mas, apesar de quaisquer juízos morais, também só lá vai quem quer, só vai à missa quem quer, só vai à bola quem quer. E por muito estúpido que nos pareça, julgamos ter de aceitar que a tauromaquia não rouba nada a ninguém e que, lá na terra deles, por muito estúpida que seja a actividade, eles lá se divertem e não obrigam ninguém a ir.

O preço a pagar pelo divertimento dos aficionados da tourada é alto. Ainda assim, o que é mais arcaico, brutal e completamente inconcebível é a maneira como se tratam os animais na indústria de produção alimentar. A tourada? A tourada é para meninos! Vão ver a carninha que comem embaladinha do Pingo Doce e vão ver como é que as ovelhinhas são atiradas à bruta de carrinhas abaixo ou como as galinhas são electrocutadas automaticamente assim que saem pela primeira vez da gaiola no fim da sua curta vida cheia de hormonas para o super-crescimento. Como vivem com a pressão para serem mortos.

E para este espectáculo, infelizmente, nem toda a gente sabe que compra o bilhete todos os dias. E mesmo os que o sabem, oh pois não vão deixar de ir comprar a sua carnuca para o churrasco de Domingo. E para a terem sabe-se muito bem que não se matam nem se torturam 10 touros por tourada mensal, rebaixa-se sim a condição de existência de milhares de seres vivos até ao mais baixo da crueldade, diariamente.

"Ah mas isso é carne pa comer, não é só para matar os animais". Pois, mas mesmo jogando no campo do que é moralmente válido, como os que nisso acreditam gostam de fazer, a indústria, e não a mão do Homem, é que "produz" a comida. A indústria não é o homem e não obedece só à fomeca de cada um. Obedece a estratégias de rendimento, em nome das quais se matam os animais que forem precisos da maneira mais rentável possível, mesmo que seja para criar excedentes e criar deformidades na natureza. Apesar de não termos aqui dados nem paciência para estar a falar dos contornos de como isto se processa, suspeita-se que os animais em cativeiro e as suas vidas sofrem mais do que aquilo que seria necessário se a indústria tivesse ligada à cabeça e à fomeca de cada um; e não quisesse nunca criar mais necessidades do que aquelas que realmente temos.

Por isso, quem gosta de dizer mal das touradas mas come o bifinho embaladinho da indústria carniceira ou até do talho, deveria pensar muito bem antes de se por a fazer juízos morais sobre as touradas ou a caça. Se calhar há prazeres mórbidos, que, quando disfarçados de necessidade, se tornam perigosos e afectam o julgamento de cada um.

Nós vamos continuar a comer o bife, temos pena, e a não gostar de touradas, temos pena; mas ao menos não há cá rebeldia sem causa. Para quem não come o bifinho, ai pois é a quem se pode dar toda a legitimidade para protestar; mas quem o come, tem que se lembrar que a vida não é Barrancos e um dia não são Samoras Correias.

Mu.