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30 March, 2007

Da agitação política portuguesa


Que mês este de Março! Eis que, em 2007, se resolve voltar à antiga força de viver política, que marcava a juventude e o país, sim, do antigamente, e que agora ecoa nas televisões, como um reminder de que o povo não está adormecido.


Pois é, ao invés de nos lembrarmos que o Estado trabalha para nós - ninguém se lembrava já disso, que todas as pedras da calçada são minhas e tuas (hã, à José Cid na festa da FHM) -, deixamo-nos comer livremente, e mal cozidos; sacrificam quem não merece, mentem nas campanhas, e beneficiam os que já têm muito. Tem sido sempre assim, quase desde Abril de 1974; até ao mês de Março de 2007.


Queriam provas da vivacidade política deste povo português, ora pois aí têm. Que foi a marcha do General Humberto Delgado, um grito gritado na língua do povo, com a escolha de Salazar para o Melhor Português de Sempre? Há maior mostra de vontade, de desagrado, que dizer "este é o nosso chefe, ele fala por nós". Humberto Delgado acabou com um bocado de metal encrustado na sua superfície craniana, e Salazar terá mais sorte, porque a cadeira há muito que lhe ditou o destino. Seja como for, as massas falaram - ainda que o público-alvo da RTP seja um factor importante -, o povo falou.


Mas nada mais empolgante que a memória dos grandes protestos estudantis, liderados por heróis como Jorge Sampaio - há exemplos com mais estilo, também é verdade -, Álvaro Cunhal, Santana Lopes, Durão Barroso. O que pensamos hoje destes dois últimos, não interessa, mas tivemos aquele grupo de 20 alunos a arrombar a porta da reitoria da Universidade Independente. É pena que as pessoas só se mexam quando o dinheiro fala, e ainda mais pena dá ver a maneira como foram levadas a cabo estas acções. Quais pedradas, quais cocktails molotov, quais cargas policiais. É telefonar para a RTP ali ao lado e pedir ao gordo que arrombe a porta para eles filmarem! "Ganda protesto, tás a ler!? Agora é que eles vêm que nós não estamos a brincar, e ainda mais, não temos medo da PJ, ainda que seja pior que a PIDE!" - esta última afirmação inspira-se no que disse o Amadeu Lima de Carvalho, um dos accionistas da SIDES, a detentora da UnI: "Fui tratado ontem [terça-feira] na PJ pior do que a PIDE tratava um advogado". Deve ser. Juntos venceremos.


Ainda sobre a luta académica, tivemos um remake das famosas batalhas estudantis na Faculdade de Letras. A Lista U, da JCP - apoiada por um movimento espontâneo de solidariadade anti-fascista -, venceu mesmo a lista X, que era apoiada pelo PNR e grupos ligados à extrema-direita. Estes espalharam o medo e o terror, ao afixarem pelas paredes mensagens contra a imigração, rasgando tudo o resto que encontravam pelo caminho. Cuidado, agora vem a parte mais violenta. Os 30 gatos pingados, alegadamente "boneheads", fizeram uma "guarda" às instalações da faculdade. Uh, que medo! Nas escadaria da faculdade, diz-se, encontraram-se os dois grupos, de um lado gritando-se "Fascismo nunca mais", e do outro "Portugal aos portugueses", ou coisa parecida. A lista de esquerda acabou por gritar mais alto. O povo unido jamais será vencido.


São três exemplos do estado da dormência política a que a sociedade portuguesa chegou, são três demonstrações ridículas dos amigos "deixa andar" e do "só quando me toca a mim". São os melhores amigos da consciência política e do activismo da gente do nosso país.


A RTP gasta milhões num formato da BBC que não foi minimamente adaptado nem divulgado adequadamente, no nosso contexto. Os slogans eram algo de assustador na óptica da compreensão geral desta sociedade super-instruída - Torcionário? Oh dona Rosa, sabe o que é?-. O facto de Salazar ter sido o escolhido é um indicador grave de incultura desta gente, e a RTP meteu os pés pelas mãos, tendo-se perdido milhões com esta brincadeira, e mais um tacho para a Maria Elisa. Nós não concordamos com a comparação qualitativa entre as personalidades, mas RTP, enterraram-se mais que com o "Olha que Dois". O povo falou, e o resto envergonhou-se dele .


É preciso 20 gajos para arrombarem a porta de um gabinete, quando já tinham chamado os jornalistas, tudo por causa do medo de poderem deixar de ter aulas já para a semana, depois do investimento da propina. Hã, cuidado com eles! A PJ é pior que a PIDE hã, há que ter cuidado, ainda ficas a meio de Direito Comercial II. A demonstração foi corajosa, mas ridícula, pelos motivos e método com que foi implementada - estes termos são os que têm que ser, ou não estaríamos nós a falar da Alta Academia UnI -. É triste que isto só aconteça por motivos importantes, mas não tão importantes como o são alguns abusos do governo e governos, pelos quais ninguém arrombou portas ou chamou a RTP; deixaram que o Pacheco Pereira e o Jorge Coelho mandassem uns bitates num canal que para quem o pode pagar. O povo saiu á rua, mas só na sua.


A batalha entre fascistas e comunistas é um "must" para muita gente, que usa qualquer pretexto para a relembrar. É um património histórico importante, ainda que não tenha havido outra coisa que não comunistas e salazaristas, mas que, pá, por favor, já chega. Qualquer assuntozeco facilmente é retratado como uma batalha entre "comunas" e "fachos", então os de Letras, que não têm muito que fazer, e adoram estas coisas, lá recriaram a batalha de Waterloo entre estas duas facções - mas podiam, mesmo assim, ter arranjado guarda-roupa da época e um guião, e cobravam bilhetes à porta, era bem -. O extremismo de Direita, meus amigos comunistas, é uma coisa residual, são meia dúzia de palhaços, que fazem precisamente aquilo de que vocês tiveram medo: "várias dezenas de skins a fazerem a sua demonstração de força é um sinal muito inquietante. Não parece normal que a PSP tenha convidado a retirar-se quem pintava o mural, mas tenha deixado cerca de 50 skins no interior e nas imediações da faculdade, em pose ameaçadora, bebendo cerveja, fazendo uma espécie de guarda a um dos bares da faculdade, enquanto ia distribuindo panfletos." Isto diz um blogue de alguém da Faculdade de Letras. Até parece que o morro desceu ao centro do Rio de Janeiro, e dezenas de putos cocaínados com cutelos e pistolas massacraram a faculdade de Letras. Voaram sequer cadeiras? Vidros partidos?


É esta a agitação política portuguesa, agita-se mal e por muito pouco.

1 Comments:

Blogger Patricia said...

e porque não escrever usn comments um bocadinho menos extensos pra não perdermos uma manhã de trabalho a lê-los?? hehehe beijinhos já tinha saudades de vir aqui ler as tuas sátiras!

2:03 AM  

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