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24 January, 2007

Filmes históricos que desensinam a História


Apocalyto. Um bom filme em termos cinematográficos, pensamos, mas uma péssima lição de história. Pronto, só para perceberem do que é que vamos falar desta vez.

Depois do Gladiador, onde o Russel Crowe ganha mais poder que o Imperador de Roma; do Tróia, em que havia templos em honra de Apolo em plena praia, e onde se juntou um exército grego maior do que se fosse na Primeira Guerra Mundial (tirando o facto de que a um quilómetro de distância toda a gente gritava, "olha, vai ali o Aquiles"); da perseguição na selva do Alexandre, O Grande; ou da transformação de Tom Cruise no Último Samurai, no auge do conservadorismo aristocrata japonês anti-Ocidente; eis que nos surge Apocalypto.

Achamos bem - e, aliás, a Paixão de Cristo é um bom documento - que se ensine história e se revele os contornos de episódios épicos de uma maneira humana, utilizando todas as técnicas modernas para aproximar o espectador do que realmente se passou na história, ou História, que se pretende contar. Apesar de assumidamente não ser pedagógico o objectivo deste filme, Apocalypto faz isto perfeitamente, mas distorcendo os factos e mostrando aquela gente Maya como se fossem uns primitivos sem escrúpulos que se chacinavam mutuamente. É verdade que comiam mal e não tomavam banho, mas não é por isso que são género satânicos "dark side".

As tendências ideológicas retrógradas de Mel Gibson, toda a gente as conhece, mas, pelo menos podia ter tido um bocadinho só de cuidado no estudo. Ora bem, ele cria um envolvimento com o povo Maya no qual recria a existência de idílicos aglomerados recolectores - e não agrícolas, o que seria, na civilização Maya, virtualmente impossível -, sem qualquer tipo de conhecimento da metrópole existente mesmo ali ao lado. Primeiro, este é um tipo de isolamento que nunca caracterizou o desenvolvimento abrangente desta civilização. Segundo, não foi num estado de atraso deste género, por um lado, nem uma civilização Maya com aquele tipo de arquitectura e governação mística da sua era dourada - que acabou em 900 d.C. -, por outro, que os espanhóis encontraram os Maya pela primeira vez.

O facto de estes terem gosto pela tortura e pela morte também não é bem verdade, pois os alvos dessa tortura eram normalmente dirigentes de grupos rivais, com o intuito de provar simbolicamente a supremacia, e não membros "civis" de uma tribo. Também não há indícios de que houvesse prática de "recolha" de escravos nas selvas. Primeiro, porque os escravos eram constituídos principalmente por prisioneiros de guerra, e, depois, porque nenhuma comunidade agro-pecuária viveria isolada no meio da floresta, preferindo as clareiras para se estabelecerem. Por fim, nenhum centro político Maya estava separado por mais de 20 quilómetros de distância, tornando esse tipo de reclusão difícil de acontecer.

E pronto, aí esta a nossa pequena destruição do Apocalypto, apesar de termos, de um modo geral, gostado do filme, não pudemos deixar de expôr os tendenciosismos marketizantes com que foi escrito esta longa-metragem. E como sabemos nós tantas coisas? Já se pensava que nós sabíamos alguma coisa! Não! Fizemos uma pesquisa na Internet e informámo-nos, mas teríamos tido metade do trabalho se tivessemos lido logo esta entrevista do National Geographic. Leiam, não acreditem naquele gajo que fala mal inglês que mete medo e que entrevista as estrelas todas na televisão!

3 Comments:

Anonymous L. said...

Só te digo uma coisa: Mel Gibson.
Acho que está tudo explicado...:)

3:40 AM  
Anonymous nyshe said...

a cena do eclipse a "salvar o herói à boca da execução" é interessante mas nada original: é copiada grosseiramente do livro do Tintin "Le Temple du Soleil", que aliás deu um filme que o Gibson terá "visto ou ouvisto". O próprio Hergé já se terá inspirado então numa história ou lenda que envolveria o C. Colombo num enredo semelhante (ler em http://en.wikipedia.org/wiki/Prisoners_of_the_Sun).
O filme é intenso e bem filmado, mas a história e a História não são tão bem tratadas...
F Torrinha (nyshe)

1:53 AM  
Blogger D.T. (J.) said...

toda a gente concorda!

6:27 AM  

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