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15 September, 2006

A Porta do Ser ou Não Ser


Esta porta tem muito que se lhe diga. Passar por ela é, para muitos, uma subida na escada social, e por ela entrar sem pagar consumo mínimo é o jubileu de muitas mentes com fome de serem alguém. Exactamente, este Stargate português é a porta do Lux. Este promontório para o "outro lado" tem muito que se lhe diga, apesar de já ter perdido um pouco do seu brilho elitista, anteriormente comandado por um senhor que se chamava Miguel. O Miguel do Lux era uma personagem que toda a gente queria conhecer, e mesmo quem não conhecia conhecia-o. Era muito engraçado. Agora o Miguel foi-se, deixando para trás o "pela esquerda" e o "pela direita", prática que se mantém agora com a Amiga Olga, com um menos bom aspecto que o seu antecessor, mas que continua a conseguir imprimir nas mentes fracas um sentido de exclusividade instantâneo, quando as palavras "pela direita por favor" lhe saem da boca.
Ainda assim, a futilidade de "passar pela direita no Lux", expressão já institucionalizada, não deixa de ser infrutífera, já que 12 euros, o que quem vai "pela esquerda" paga, são duas bebidas brancas. Ora, diríamos que 80% das pessoas que frequentam a casa dos sucessos bebe pelo menos duas bebidas brancas; logo, bradar aos sete ventos que se passa "pela direita" é só e simplesmente uma mostra de afirmação social, ainda que muitos dos que publicitam esta prática digam "o quê? achas que sim? não meu, é só para não tar nas bichas das bilheteiras que é uma ganda seca meu, tás a ver" (normalmente isto vem depois do, "o quê? no Lux entro sempre pela direita"). Quem passa pela direita no Lux é especial, é alguém que está acima do normal poveco, alguém com o condão da exclusividade. É este o estatuto que gostam de dar ao facto de se ser cliente habitual e a casa confiar que este otário, pelo menos, vai largar aqui 12 euros por duas bebidas, o que nos paga, pelo menos, 3 garrafas.
Nós, se fossemos clientes habituais do Lux, concerteza passaríamos pela direita sem propangadear esse previlégio dado àqueles que já lá gastaram rios de dinheiro em álcool ao longo destes anos. Mas pronto, mentes inseguras, mentes à procura de protagonismo, mentes que raramente se distinguem na vida com alguma coisa, é para elas o mariposeio da porta do Lux, uma grande mais-valia nesta vida, hã! Querem-se convencer a si mesmos e aos outros que entram porque são bonitos, fixes, sociais, conhecidos, "coois" (de "cool"), na moda. Às vezes até são, hã! Ninguém disse o contrário!
Apesar de o elitismo luxiano ter esmorecido um pouco, a exclusividade e a deferência são coisas que os portugueses adoram. Os que estão numa escala inferior compactuam com os que estão acima de si, na esperança de um dia, se lá chegarem, haver novos inferiores que lhes encham o peito de cordialidades. É assim à porta do Lux, é assim nas universidades quando se quer falar com algum professor "muitá bom", é assim nos hospitais quando se quer falar com o "senhor doutor", é assim, é assim; para se chegar a esses Kwisatz Haderachs, esses "super-beings", uma pessoa tem de se esforçar, é assim mesmo, ou achavam que eles eram pessoas iguais a vocês não? Isso é que era bom! E é assim o ser humano, mas realmente: o português é mesmo o mais "humano" do mundo.

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